Palmadinha pedagógica ou incompetência?

Nesses mais de seis anos que o Dudu entrou na nossas vidas, bati nele uma vez. Ele gritava, esperneava, chorava, não ouvia. Perdi o controle, e bati. Nunca vou me esquecer dos olhos arregalados e do rostinho apavorado dele. Quer coisa mais assustadora do que um adulto fora de controle? Ele colocou as mãos na boca, e gritava “não!”.

Eu nunca vou esquecer, e ele nunca vai esquecer. Ás vezes ele me cobra, eu explico, peço desculpas, digo que não vai acontecer mais, e ele “esquece” por um tempo. Não sei se isso quer dizer que não superamos ou, pelo contrário, se falamos disso é porque superamos. Mas sei que tem um monte gente, defensora da palmada corretiva, que deve pensar que estou sendo extremista.

Ouço um monte de gente reclamando do nosso mundo violento. Que as pessoas matam e espancam sem precisar de grandes “motivos”. Mas invadir a integridade física dos filhos é considerado normal. É ter pulso firme, é pôr limites. Só eu vejo a contradição nisso tudo?

Se eu dou um tapa no meu filho por ele me fazer alguma grosseria, estou ensinando que é assim que resolvemos o problema. Estou ensinando a lei do mais forte (manda quem pode e obedece quem tem juízo) e que a violência faz parte das relações humanas, inclusive dentro das nossas casas. Pra que dialogar, se é mais fácil dar um tapa? Cala a boca da criança e resolve o problema do adulto.

Tenho preguiça de gente que acha que não bater é o mesmo que não educar. Que sem a chinelada a criança não respeita o adulto. E é desrespeitando, agredindo e ameaçando que ensinamos a respeitar. Não podemos ser amigos dos nossos filhos. Não podemos dialogar com eles, porque eles “ainda não entendem”. Então, lançamos mão da maneira mais retrógrada que existe, e que todo mundo entende: a dor, a humilhação, a mágoa.

Deveríamos educar nossas crianças para o amor, a empatia, a doçura. Sei que é difícil. Meu filho tem personalidade forte, bate o pé quando acha que está certo e é decidido. Exatamente como eu, e por isso acabamos entrando em conflito muitas e muitas vezes. Confesso que perco a paciência muitas vezes, digo que tô cansada, falo de maneira mais ríspida do que gostaria e ás vezes dou um grito sem pensar duas vezes. Mas eu não tenho vergonha de me desculpar, de abraçar e de dizer que sinto muito.

Não estou aqui pregando a perfeição e o total equilíbrio. Todos nós temos nossos dias ruins. Só acho que nossa imaturidade emocional não deve prejudicar ninguém, muito menos aqueles que deveríamos proteger. Se não admitimos que alguém nos esbofeteie pra fazer valer a vontade, por que com nossos filhos pode? Por que temos que silenciá-los na base da porrada?

Se quero que meu filho tenha maturidade para lidar com os problemas e sempre encontre a melhor maneira de lidar com as dificuldades, tenho que começar a avaliar os exemplos dentro de casa. Se ele imita até os meus vícios de linguagem, também vai imitar a minha maneira de pensar e lidar com as pessoas. Se hoje ele me enfrenta e eu dou uma surra, amanhã fará o mesmo na escola, no ambiente de trabalho, na rua etc…

Violência é violência, e só gera mais violência. Educar não é adestrar, e bater não deveria ser atestado de autoridade, mas sim de total incompetência.

8 de março

Dia de receber rosas! Dia esse em que o sexo masculino nos olha, e diz “Parabéns!” cheio de orgulho, nos mostrando o quanto já conquistamos: nós já votamos, já somos fortes concorrentes no mercado de trabalho, e temos entrada grátis em casas de shows e boates (dispenso). Sem falar na Maria da Penha! Os homens não têm uma lei que os protejam de nós, mulheres. Então tome este rosa, você merece! Afinal, rosas são belas, cheirosas, frágeis, puras, delicadas! Como nós mulheres devemos ser. Mas rosas têm espinhos, também como nós. Somos ardilosas, perigosas, traiçoeiras, manipuladoras. Cuidado homens! Mas mesmo assim, eles nos presenteiam, pra mostrar que o mês de março é nosso. Não há mais por que lutar! Igualdade de gênero pra que, sua ingrata? Nós temos que nos valorizar. Temos que ser recatadas; não podemos dar no primeiro encontro; não podemos beber do copo de um desconhecido; não podemos encher a cara sem correr o risco de sermos estupradas por aqueles que deveriam nos ajudar; não podemos andar sozinhas na rua sem parecermos à disposição de quem quiser. Numa época em que se revidar uma apalpada leva-se um tiro na testa, que se presenteia familiares com estupros por diversão, que se existe uma média de 5 mulheres espancadas a cada 2 minutos é porque a mulherada gosta, e que 10 mulheres morrem nas mãos de companheiros e ex companheiros, TODOS OS DIAS.

Francamente, um dia que deveria ser realmente importante, com uma perspectiva política, crítica e de luta, virou mais um dia para o consumismo: salões de beleza, floriculturas, restaurantes, lojas de eletrodomésticos, e até motéis.

O 8 de março virou uma data festiva, como o dia da criança. Chega-se ao estado bizarro de ganharmos PRESENTES! Num momento em que se deveria pesar essa dualidade ao se tratar do ser humano e  a condição do feminino na sociedade, é mais fácil encomendar um buquê de rosas, ou lançar mão do escárnio (aqueles comentários escrotos e alienados do tipo “pra que um dia da mulher?” ou “os outros 364 dias são dos homens”, e a melhor pérola, na minha opinião “feminismo é só o oposto do machismo”).

Enfim, hoje não é o dia da mulher. Hoje é o dia de ressaltar o nosso lugarzinho perante nossa sociedade patriarcal e preconceituosa. De mostrar que é assim e pronto, que somos diferentes biologicamente falando e pronto. Que já temos nossas funções decorativas e a maternas (é assim que aparecemos nos comercias, principalmente hoje). E que aceitemos a bendita rosa e calemos a nossa boca, que já tá de bom tamanho.

Nunca haverá uma sociedade homogenizada enquanto as pessoas pensarem “mas tá difícil pra todo mundo”, assoviar e olhar pro outro lado. É mais fácil acreditar que já conquistamos tudo, e que estamos em uma sociedade pós-feminista, cheia de respeito pela sexualidade e sexo femininos. Exceto que não.

O que você, mulher, vai fazer? Aceitar as suas rosas, com um sorriso meigo e agradecimentos, ou mandar enfiar no cu?

Mamífera

Todo mundo sabe que eu tenho um filho. Mês passado completaram-se  seis anos que ele entrou na minha vida (tirando os nove meses em que compartilhamos o mesmo corpo). Eduardo é uma criança peculiar. Não por eu ser a mãe, mas geralmente eu noto que a reação das pessoas quando tem algum contato com ele é a mesma: ficam surpresas. Ele tem um raciocínio afiado, e várias vezes me pego olhando para o seu rosto, com aquela expressão pensativa. Os interesses dele, no momento, são as dúvidas, os porquês, sua cabecinha está sempre fervilhando. E isso me assusta. Tenho medo de não corresponder às suas expectativas. Tenho medo de dar uma resposta dura. Esses dias estávamos assistindo ao filme My Girl (Meu Primeiro Amor), e em determinado momento, a menina pergunta ao pai por que existem caixões pequenos, se seriam para crianças. Ele me olhou, e perguntou o que eu faria se ele morresse. Instintivamente, eu o abracei e disse que morreria também. Não foi a melhor resposta, eu sei. Não quero que ele pense que a vida acaba mediante a morte de uma pessoa querida. Pretendo conversar mais com ele sobre isso, mas não agora. Creio que nessa idade, o mundo ainda é uma coisa meio mágica pra ele, e não há mágica nenhuma na morte, na perda, na dor. Podemos protelar por mais alguns anos… Mas a sensação de incompetência é grande, e ver uma expressão não satisfeita naquele rostinho me mata. Tem mães que optam pelo mais fácil, coisificando a criança, como se ela nunca tivesse nada de interessante para falar. Lembro de uma conversa entre o Dudu e eu que me marcou muito: ele chegou da escolinha e me disse que os coleguinhas riram quando ele chamou o lápis de cor bege de “cor-da-pele”. Prestando metade da atenção devida, respondi que eles estavam errados, e que era esse mesmo o nome da cor. Mas sabe quando tu para pra pensar, e dá aquela pesada básica nos seus conceitos? Pois é. Metade dos coleguinhas do Dudu tem a pele mais escura que a dele, e o lápis “cor-de-pele” não se ajusta ao perfil deles. E pra falar a verdade, quem tem aquela cor? Eu sou branca, mas meu corpo tem mil cores: ombros e braços bronzeados, pernas quase transparentes, sardas no rosto, manchas de hipocromia na canela. Se fosse para definir uma cor para o mim, seria degradê.  Enfim, não existe uma cor padrão para a pele. E ninguém nunca me corrigiu a respeito do lápis de cor. As pessoas de mil cores acham normal padronizar a cor da pele sendo como a daquele bege. E passam isso para as suas crianças. Fiz o possível para corrigir o meu erro, e comecei a pesar mais esses termos cotidianos que a gente usa por costume, e que podem ter um grande significado discriminatório por trás. E eu não quero passar esses mesmos pré-conceitos de maneira indireta para o Dudu.

Mas o medo existe, e o erro é uma coisa maternal. Por isso, no momento em que me vi grávida, busquei por informação. Li livros, blogs, revistas… Enfim, no alto da arrogância dos meus 17 anos, tive que lidar com o fato de que eu seria responsável por uma nova vida. Revi meus conceitos, busquei emponderamento. Obviamente cometi muitos erros, começando pela escolha do meu parto. Optei pela cesárea, em uma decisão cega e totalmente desinformada. Tive medo de parir, de me entregar, de gritar e protagonizar o meu parto. Sem contar que fiquei 3 horas longe do meu filho, sentindo dores lancinantes e com medo de não conseguir amamentá-lo (eu ainda não tinha leite, e ninguém me auxiliou nesse aspecto). Me faltou coragem, assim como falta para 85% das mulheres atualmente, que optam pela desnecesária. Coragem essa fundamental para mim, na possibilidade de um segundo filho: quero parto natural. Quero sentir o círculo de fogo que tantas mães falam, e que eu desconheço. Quero segurar meu filho nos braços, ao invés de receber uma breve visualização do seu rostinho, com os braços amarrados, como aconteceu no parto do Eduardo. Confesso que demorei para diferenciar o bom senso do senso comum. Tinha muitos preconceitos em relação ao parto natural, mas lembro como invejei a minha colega de quarto no hospital, passeando com o filho nos braços, indo ao banheiro, rindo sem sentir uma facada no baixo ventre. Coragem para parir? Coragem para se submeter a uma cirurgia de médio porte, isso sim! E se eu tiver total apoio, até o parto domiciliar me é atrativo.

Enfim, tantas mudanças aconteceram desde o nascimento do Dudu. Eu amadureci, o Maicon amadureceu, compartilhamos uma vida a três (ou melhor, a quatro, contando com a Gaia), e descobrimos como a vida é maravilhosa assim. Tudo se encaixa, talvez até mais um filho. Mas não agora. Queremos melhorar nossa situação financeira, ter uma casa própria (não queremos lembranças fragmentadas pelas “casas em que moramos”), e acima de tudo, convencer o Dudu a ter um irmãozin@ haha

Enfim, um post meio confuso, meio “conversa fiada”. Mas sabe como é: janeiro, férias, verão. Nem eu espero me levar muito a sério.

PS. O nome que inspirou o post veio daqui, um excelente blog sobre maternidade e suas milhares de dúvidas.

Então, não tenha filhos…

Se você não quer mudar rotina, número do manequim, e não quer acordar de madrugada, não tenha filhos.

Se você tem preguiça de ninar, de distrair, de mostrar, não tenha filhos.

Filhos não se importam se estamos ocupados, com dor de cabeça ou mal humorados. Filhos nos querem ali, ao lado deles, dispondo de sorrisos e palavras doces.

Se você  não está disposta a doar seus seios para alimentar sua criança, não tenha filhos.

Se você é mimadinho, egoísta e egocêntrico, não tenha filhos. Se reproduzir não vai mudar seu caráter.

Se você for a mãe, é em você que ele vai se espelhar, se basear, acreditar piamente durante boa parte da vida. É você que ele vai chamar de madrugada, quando tiver um sonho ruim. É de você que ele vai lembrar com mais força, e faça valer a pena, por favor.

Se você acha um saco choro de criança, e acha a criança em si um saco, não tenha filhos.

Se você se acha muito mais importante do que o seu filho, por que foi tê-lo? Ele não pediu para estar aqui. Ele não quer ser um problema para a mamãe e para o papai. Ele quer gritar, chorar, descobrir, ser curioso à vontade, sabendo que tem alguém por perto pra acudir nos momentos de perigo.

Mas se você prefere gritar e deixá-lo com medo, não tenha filhos.

Se você acha mais cômodo mandá-lo calar a boca do que ouvir o que ele tem a dizer, não tenha filhos.

Se você faz questão de perpetuar seus preconceitos, passando-os para sua criança, simplesmente não a tenha. Será um favor que você fará a ela, pois de duas, uma: ou ela será tão ignorante e sem personalidade e irá aderir aos preconceitos de papai e mamãe (e por favor, chega de gente assim), ou  você será uma vergonha para ela.

Se você não consegue enxergar a importância de ouvir o seu filho, de amá-lo, acariciá-lo, abraçá-lo e dar o melhor de si por ele, por favor…

Se você não quer ter filhos, não tenha filhos.

Seu filho provavelmente não será como você. Quando crianças, eles nos amam mais do que a qualquer coisa, mas quando adulto, passam a nos julgar como seres humanos. Como eu li por aí, “a arte final são eles que fazem”. Depende de você a maneira como seu filho pintará o quadro da mamãe e do papai no coração dele.

Mas se você não se importa, então não tenha filhos.

Não se calem mais

Pois é… Não vou falar de algo bonito. E sei que o assunto já ta batido, ainda mais aqui, já que não tenho tido tempo de atualizar o blog, e também porque eu só publico posts que eu considero bons o bastante pra serem compartilhados.

Enfim, eu tenho lido tanto, mas TANTO, sobre violência contra a mulher, que a coisa ta me deixando desacreditada… E piorou o fato de eu ter lido um post aleatório por aí sobre histórias de horror que toda a mulher tem pra contar. São histórias de abuso, de assédio, de estupro. Num primeiro momento, minha reação foi ficar horrorizada. Daí eu parei e pensei: pensei em mim, e nas mulheres com quem eu convivo. TODAS nós temos uma história assim pra contar.

As minhas não são menos graves, e não foram menos traumatizantes pra mim. Então, por que eu convivo com elas assim, como se elas fizessem parte do meu dia-a-dia? Como se fosse natural eu sair na rua e ouvir buzinadas, grosserias, cantadas ordinárias… Como se eu estivesse ali pra isso. Como se o fato de eu ter uma vagina explicasse tudo. E você, mulher, sabe do que eu to falando. Que mulher nunca foi xingada na rua? Sentiu seu corpo ser apalpado sem seu consentimento? Ficou com medo de ser estuprada? Recusou caronas de estranhos (da última vez em que recusei uma carona, o cara acelerou o carro numa poça de água… acho que pra me punir por ter tido a audácia de negar a carona dele)? Ou, no mínimo, passou por algum babaca babando seus peitos e traseiro?

Vou relatar duas situações pelas quais eu passei: A primeira foi com 10 anos. Sendo meio gordinho, o meu corpo meio que desenvolveu “no susto”. E eu queria usar as mesmas blusinhas de alça sem sutiã, os mesmo shorts leves. Até que um dia eu tava andando na rua, e um idiota se achou no direito de apertar o meu seio. Eu me lembro de ter ficado em estado de choque. Lembro de ter chorado, de sentir vergonha, medo e de não contar pra ninguém. E lembro, também, de ter começado a andar na rua com o braço na frente do corpo, pra me proteger de outras possíveis investidas (numa delas, o cara meio encurralado pelo meu braço, se contentou em “só” beliscar minha perna).

E dez anos depois, acontece de novo. Na rua, de novo. Só que dessa vez, o cara tava vindo por trás de mim, e sei lá, ele achou que seria agradável e não teria problemas em apertar a minha bunda sem o meu consentimento.  Além de ter falado umas baixarias e continuado a andar com cara de machão (ahaaam…), não aconteceu nada com ele. Porque de novo eu fiquei em estado de choque, de novo eu tive vergonha, de novo eu tive nojo e de novo eu chorei. Eu me arrependo de não ter feito um escândalo, de não ter gritado, xingando, esperneando e exigido respeito. De não ter sentado a mão nele.

É meio infeliz pensar assim, mas eu tive sorte por ter sido “só isso”. Não vou enumerar as cantadas grosseiras, obscenidades, cheiradas de cabelo, tentativas de agarrar a minha mão, e outras muitas situações que as mulheres estão acostumadas a passar. Mas daí eu penso: eu já fiquei chocada com o cara passar a mão em mim, o que acontece com uma vítima de estupro?

Por falar em sorte: tive “sorte” em outra situação… Mas aqui a coisa é mais embaixo, e não vou citar nenhum nome, já que envolve pessoas e situações meio complicadas. Com 12 anos, eu fui uma “quase” vítima de abuso sexual. Não foi na minha casa, mas foi num ambiente familiar. Apenas meus pais, irmãos e amigos íntimos sabem da história completa. Na época eu me calei, tive medo, vergonha, inventei desculpas pra não cruzar o caminho do sujeito. E alguns anos depois, eu descubro que minha irmã passou pela mesmíssima coisa, com o mesmíssimo sujeito. E ela agiu exatamente como eu: não fez nada. Desconheço os motivos dela por ter se calado na época, mas já pensei muito nos meus. Não consegui achar nada melhor do que o medo, em todos os sentidos, mas principalmente o medo de falar, e de repente a situação ficar real e ganhar toda a seriedade que ela merecia. Eu tinha 12 anos, e não queria lidar com uma coisa que eu nem entendia.

Bom, nos últimos dias eu    tenho lido depoimentos de mulheres assim: contando situações de abuso pelas quais elas passaram e passam no dia-a-dia. E ando torrando meu cérebro de tanto pensar nisso. Não consigo mais sentar do lado de alguém no ônibus, seja homem ou mulher, sem pensar se ela já foi abusada ou se já abusou de alguém. E os índices não ajudam nada a enfeitar a situação: uma a cada três mulheres será vítima de estupro antes de atingir os 18 anos. Pagamos o preço por termos nascido com vagina e um par de peitos.

E agora, a grande pergunta: a culpa é de quem? Da mulher que anda de mini-saia? Da mulher que bebe até ficar inconsciente? Da mulher que sai sozinha de noite? Da mulher que “provoca” o homem? Da mulher que aceita carona? Acho que é muita mulher pra pôr a culpa… E sempre tem aquele que diz: homem também é estuprado. Humm… Por mulheres?

Pois é, já vi cara afirmando que se a mulher não se valoriza, o homem, esse animal irracional, não se agüenta. Inclusive vi uma reportagem de uma menina de 15, de Santa Catarina, que foi numa festinha com os amigos, bebeu todas e ficou inconsciente. E adivinha só: três rapazes acharam que a atitude mais humana e acertada a se tomar era estuprar a guria, filmar com o celular e espalhar na internet. Pois é… Essa história gerou muita polêmica, mas não pelo fato de a menina ter sido violentada, mas sim pelos comentários de vários representantes do sexo dominante (os machões): “ela tava pedindo”; “com 15 anos não é estupro” (tenho pena de um cara desses); “por que foi beber tanto?” Claaaro meninas, não bebam até cair, porque afinal o preço a se pegar é mais alto do que uma ressaca no outro dia.

É, e esse texto já ficou maior do que eu pretendia… Não sei exatamente no que esse post vai ajudar, e pra falar a verdade, nem era a minha intenção “ajudar”. Talvez eu esteja só desabafando… Talvez o meu desabafo incentive outras mulheres a pôr a boca no trombone e não se calar também. Mas uma coisa é certa, e é até patético que eu a diga aqui: alguma coisa está errada. Não está só em minhas mãos e muito menos nas minhas pretensões mudar o mundo. Mas a minha vida eu to mudando, e isso inclui a educação do meu filho de cinco anos. Se os pais pararem de perguntar pra filha qual é o namoradinho dela enquanto pro filho quantas namoradinhas ele tem, e acima de tudo INCENTIVAR e OUVIR o que as crianças têm a dizer, prestar atenção e acreditar no que elas dizem, já é passo. Ensinar as meninas, desde pequenas, a se defenderem, é outro. E parar de ensinar padrões distorcidos para os meninos, consta como mais um.

O “bom gosto”

Antes de mais nada: MINHA opinião. É, você pode não concordar, mas isso não quer dizer que eu não tenha o direito de expressá-la aqui. Não gostou? Comenta aí, usando aqueles princípios básicos da educação. Ou então caia fora e não me encha o saco. He.

Eu tava esses dias dando uma pesquisada sobre preconceito cultural. E eu achei muita coisa, desde o preconceito propriamente dito entre as culturas de países, estados etc, em relação à mitos, folclore, músicas e danças regionais, até disputas ridículas pra ver quem é mais inteligente, quem leu mais livros ou quem viajou para mais lugares. E é difícil  eu ser imparcial nesse aspecto, sem talvez  acabar caindo na droga da armadilha do preconceito. Porque sim, eu tenho preconceitos, mas a maior parte me é oculta, e conforme eu me deparo com eles, tento ou dissipá-los, ou no mínimo amenizá-los, mas SEMPRE compreendê-los.

É, pode ser estranho ver algum indício preconceituoso em um texto que trata de… preconceito.

Na verdade, nem sei se esse é o termo apropriado para se usar aqui. Mas como o blog é meu…

É, me processe.

Bom, eu sou uma pessoa que geralmente presta MUITA atenção ao que as pessoas dizem. Ás vezes elas nem notam, ás vezes eu faço de conta que não ouvi, ás vezes eu nem respondo. E sim, quando elas dizem algo interessante, eu peso os argumentos, tento enxergar o outro lado, e tem vezes que eu até pesquiso os fatos. Enfim, é uma boa maneira de se conhecer as pessoas (sim, generalizando). E eu acabo de chegar no ponto que eu queria ^^

Conhecer as pessoas. Conhecer os gostos das pessoas. Conhecer o porquê de a pessoa achar aquilo gostoso. E, acima de tudo, RESPEITAR o fato de ela gostar. Parece simples no contexto, mas na prática, geralmente a coisa é lamentável. Tipo, uma coisa (BOA) é criticar. Mas criticar não é só falar mal. E críticas bem fundamentadas geram ÓTIMAS discussões. E o poder de argumentação agradece.

Por exemplo: quando eu leio um livro que me salta a cara, eu respiro fundo, e vou procurar a opinião de quem não gostou. Pode parecer, sei lá, contraditório. Mas não existe nada mais satisfatório para fins de plena compreensão da obra (no caso) como um todo, e enxergar as coisas por um outro ângulo.

Agora, uma coisa é eu pesar os prós e contras daquele livro que num primeiro momento eu achei INCRÍVEL, e formar a minha opinião sobre o mesmo, e outra beeeem diferente é eu ter a pretensão de achar que só porque eu gostei, a coisa é boa mesmo. Pois sim, existe diferença entre a coisa ser boa pra mim, e de a coisa ser boa de fato.

Tipo, quando eu tinha 10 anos, lá fui eu, pela primeira vez, assistir um filme no cinema. Qual o filme? Titanic. E olha que eu nem sabia do que se tratava a história. Pra ser franca, eu achava que era algo envolvendo uma baleia ou um tubarão hahaha Enfim, eu saí da sala simplesmente CRAZY. Aquilo pra mim foi o máximo, a história perfeita, e sim, pra mim era o melhor filme do mundo. Eu tinha pôsteres, agenda, camisetas, cartas que eu escrevi, e até uma miniatura do navio (hehe). E ficava efetivamente brava com quem falava que Titanic era uma merda.

Hoje eu vejo que os meus motivos por amar aquilo na época eram melhores do que os motivos que as pessoas  me davam pra justificar que achavam uma merda. Não tô generalizando, tô falando da minha experiência. Geralmente me falavam que o filme não prestava por causa do DiCaprio. Diziam “mas ele nem é bonito!”. Pra porra se isso é argumento.

Claro que hoje eu não fico mais brava quando falam que algo que eu gosto é uma bosta. Mas assim: acha uma bosta? Tudo bem. Mas vai ter que me dizer EXATAMENTE o porquê de você pensar assim, e não me venha com argumentos cretinos.  Por exemplo, eu li O Apanhador no Campo de Centeio (simplesmente considerada a mais acurada crônica da juventude do século XX), e eu sinceramente não me identifiquei. Sei lá, não conseguiu me cativar. Tipo, não que eu tenha achado ruim, porque de fato não é. Mas eu posso criar um post gigante aqui explicando o porquê de EU não incluir O Apanhador na lista dos livros da minha vida. Agora, tentar pregar por aí que o livro é uma droga, daí não dá, né?

E ao meu ver, essa é a diferença entre contestações de ideias com imposições de ideias. Sim, com 10 anos eu tentava convencer as pessoas que o fato de o Jack morrer no final, era simplesmente a melhor parte do filme. Não faria sentido ele ficar vivo. E eu sinceramente não acredito que ele teria mesmo ensinado a Rose a cuspir como macho, ou a cavalgar como macho (he). Provavelmente ela teria casado com o Cal, e mandado o Jack pastar. Pra mim, qualquer ponto fraco que o filme tivesse não deveria nem ser levado em consideração. E eu já tô divagando demais nesse assunto (vou fazer um post sobre Titanic *anota* ).

Enfim, o que eu quero dizer é não, eu não respeitava o fato de alguém me falar que algo que eu gostava era ruim. Mas eu tinha 10 anos, poxa… É, não que justifique, mas eu vejo gente no meu meio social com, sei lá, 10 anos mais velha que eu e que possui a mentalidade fechada pra caramba. E o pior: gente que se considera esclarecida. Gente que sofre preconceito por gostar de certo estilo musical ou por se vestir de maneira diferente, e é preconceituoso com OUTROS estilos e afins. Gente que classifica as pessoas de acordo com os gostos e preferências delas. Gente que EXIGE respeito da sociedade, EXIGE consideração e reconhecimento, mas ao se deparar com opiniões divergentes, apela pra termos pejorativos.

Para tudo, e veja bem, TUDO mesmo, tem um lado a favor e outro contra. E é aí que surgem as desavenças. E misturada com a imaturidade, e na maioria das vezes com a falta de educação, lança-se mão de xingamentos e ofensas. E sinceramente, sair xingando e mandando se foder todo mundo que não concorda com a sua opinião só mostra que você é bastante infeliz mentalmente (e verbalmente)

Contraditório? Sim, e ridículo também. Não tô dizendo que é proibido falar, porque céus, não é! Quer falar? Fale, mas fale com RESPEITO. Exponha a sua opinião e tente entender a dos outros (e veja bem, E-N-T-E-N-D-E-R é diferente de C-O-N-C-O-R-D-A-R). E sim, faça uso de bons argumentos, com coerência e de forma madura. Porque francamente, você vir me xingar porque eu gosto de Titanic sem uma droga de argumento coerente, só mostra que as suas opiniões não são muito dignas de crédito, e campeão, você dificilmente será levado a sério.

É dever de cada um entender que não está sozinho no mundo. Que ao nosso redor existem pessoas que pensam, que amam, que odeiam, que buscam informações e que têm personalidade. Que existem milhares de concepções de “certo e errado” diferentes da sua. E que o seu “bom gosto” pode ser bem diferente do meu.

Cabe a você saber defendê-lo, respeitando os outros, ou continuar no seu mundinho patético, onde só o que você acha certo, é de fato… certo.

Aquele oi…

E aquela manhã parecia tão normal. Para ela, a luz dourada que entrava pela janela da cozinha era exatamente igual a da manhã passada. Ela até fez a mesma careta ao se deparar com seu próprio reflexo no vidro da porta do forno de microondas e ver o cabelo em desalinho (que tal um louro mais acinzentado?). Tomou o café com leite magro habitual, com um pãozinho doce, nem tão habitual assim (precisava entregar a droga do projeto para a cliente chata hoje. e certamente ele não estará bom o suficiente, assim como o humor da vaca infeliz….). Tomou uma ducha rápida, porém bem quente. Vestiu a camisa branca charmosa, enquanto calculava mentalmente a quantidade de calorias ingeridas no café (o pãozinho me reduz uma colher de arroz do almoço, e fica tudo certo). Calçou as botas de cano curto (meias de nylon! não posso esquecer), conferiu se todos os bicos de energia estavam devidamente desligados e saiu em direção ao ponto de ônibus, para mais um dia no escritório (um carro… isso sim me traria mais credibilidade…).Distraiu-se, conferindo na maleta surrada (muito muito muito dinheiro por ela…  mas o couro vermelho daquela maleta me faria parecer tão audaciosa), se os molhos de chave, talão de cheques, carteira, telefone celular e necesséire estavam OK. Atravessou a rua para chegar ao ponto de ônibus, apanhou o vale transporte no bolsinho frontal da maleta, deu uma checada rápida nas horas (uuh! bem a tempo, campeão), e tentou parar na posição mais digna possível (um carro um carro um carro… ). Foi então, ao virar a cabeça para dar uma olhadela despretensiosa ao redor, que ele lhe deu oi. Um oi singelo, rotineiro, de quem pega o mesmo transporte no mesmo ponto todas as manhãs. E ela quase não respondeu (ele sabe como essa luz o favorece?), pois afinal, ela não o conhecia, ou pelo menos não lembrava. E sua resposta foi um murmúrio, um oi murcho, sem emoção e nem personalidade (??). No instante seguinte, ele já parecia tê-la esquecido. Ela até tentava não olhar, mas não era possível. Por que, afinal, ele a cumprimentou? Era impossível que passassem esses minutos juntos todas as manhãs, sem ela sequer ter percebido (ah! e eu teria notado você, esteja certo disso). Será a camisa branca? (mas ela me deixa com um ar responsável… muito monótono para chamar a atenção masculina) Será que pegou pesado na maquiagem? (mas só foram duas camadas de rímel…) Tentou se olhar de uma maneira geral, e de repente, sentiu-se péssima (preciso de umas roupas novas… sem contar que pareço uma porca gorda). E o pior é que era sexta-feira… Geralmente as dietas só têm início nas segundas, como uma desculpa para a comilança do fim de semana (ah, sim senhor! estou comendo essa barra de chocolate, mas na segunda fico só na saladinha). Ela deu mais uma olhadela na direção do estranho, e notou que ele olhava muito interessado para um anúncio de papel barato, onde o anunciante dizia ter cinco filhotes de gato para adoção (hum…). Foi quando o ônibus apontou na esquina (droga… e você se atrasa todos os dias, seu cretino!). Ao entrar, o cara do “oi” lhe deu espaço para embarcar primeiro (oh, que cavalheiro), e na tentativa de mostrar a maior sofisticação possível, ela tropeçou nos degraus, corando violentamente (mas que diabo!). Sentou-se no fundo do ônibus, onde havia dois lugares vagos. Ela sentou-se bem no canto, encolhida e com a maleta sobre o colo (é, eu não me importaria se você sentasse aqui, não mesmo). Mas ele sentou-se ao lado de uma morena bonita (cretino… como se o decote dela não fosse para atrair o mair número possível de olhares masculinos… sem contar esse permanente mal feito). Enquanto a curta viagem transcorria, ela ia fazendo planos de dar uma passada no shopping depois de sair do escritório, e dar uma reformada no guarda-roupas. Podia, também, dar uma passadinha no salão de beleza (hum… um corte mais repicadinho… é, me traria mais jovialidade). Ele desceu duas paradas antes dela, e ela realmente pensou em descer com ele (dar uma caminhadinha me faria bem), mas pensou bem e desistiu (você iria parecer grudenta, sua idiota). E o dia transcorreu na mesma situação… Nem mesmo o mau humor previsível da cliente chata conseguiu desanuviar a sua cabeça. Na verdade, ela só conseguia pensar no “cara do oi”. Ela queria ter comentado por alto com alguma amiga do escritório, mas só de pensar em fazê-lo, sentiu-se imensamente infantil (vou esperar acontecer algo de mais concreto para relatar… pelo menos mais concreto do que um “oi”). Bom, não vou tentar descrever como foi a aventura de comprar roupas novas. Na verdade, ela sentiu-se a verdade Julia Roberts dentro dos provadores (só falta tocar Pretty Woman…). No fim, ela saiu do shopping acompanhada por um bom número de sacolas, e com um ar de satisfação no rosto. Ela comprara peças que nunca imaginou que uma dia usaria. Desde uma blusa sem magas com um decote generoso, até um conjunto de lingerie, em cetim vermelho (ah! o que o amor não faz com uma mulher…). Amor? É, tá bom… Enfim, o fim de semana se arrastou de maneira melancólica. No sábado a noite, um grupo de amigos a convidou para dar uma volta, beber alguma coisa e bater um papo, mas ela pensou que saindo, trairia seus sentimentos (por que eu deveria sair, se o que eu quero é ficar em casa?). Então, ela acabou optando por assistir um romance ruim e melodramático, que a fez chorar aos baldes. Tão sensível… Na segunda pela manhã, ela acordou uma hora mais cedo (diabo, não consigo dormir mesmo…), tomou um banho bem demorado, perfumou o corpo todo, vestiu uma lingerie nova e sexy, caprichou no vestuário e na maquiagem, e ficou a torcer as mãos, esperando o mesmo horário de sair todas as manhãs. No fim, não aguentando a ansiedade, acabou saindo vinte minutos mais cedo do que o habitual. Chegou ao ponto de ônibus com a face corada, com o cabelo sensualmente bagunçado, transbordando de excitação. E o tempo que não passa!! Dez minutos… Vinte… Trinta… Ou ela pegava o próximo ônibus, ou chegaria atrasada (ah, quatro anos e nenhuma falta!). Quarenta minutos… Cinquenta… E naquela manhã, ele não apareceu. Nem na próxima.

A partir dali, ela nunca mais confiou nos homens…

Ah, as questões culturais…

Bom, na verdade eu queria que meu primeiro post nada tivesse a ver com meu “eu” propriamente dito. Aliás, eu tinha até um conto encaminhado pra postar aqui. Mas alguma coisa vem me incomodando há um tempo, e eu não sabia exatamente o que era.

Ok, meu nome é Daniela Brunner (duh), tenho 23 anos, e não sei se sou ou não uma boa pessoa. Pelo menos não finjo ser. Eu trabalho, pago minhas contas, trato as pessoas SEMPRE com respeito, não jogo lixo no chão, olho para os dois lados antes de atravessar a rua (mesmo sendo mão única), e tento passar bons valores para o meu filho. Até me considero uma pessoa bem esclarecida, mas sei (lógico) que ainda tenho muito que aprender.

Me orgulho em falar que com 12 anos eu já “varria” a biblioteca da minha cidade, por livre e espontânea vontade, atrás de algo interessante para ler. Lógico que na maioria das vezes eu escolhia o livro mais perdido possível, justamente por não ter tido ninguém que me orientasse nesse aspecto. Não sei exatamente o que me impulsionou a começar a ler livros, só sei que não parei mais. E é a minha maneira de me conhecer melhor. E, automaticamente, comecei a pesar meus valores, crenças, atitudes e etc, conforme meu “lado pensante” foi se expandindo e evoluindo. Comecei a analisar o que me foi ensinado, estereotipado, o que era certo, o que era feio, o que eu podia e o que eu não deveria fazer. E acho que esse foi o ápice da minha quebra de algemas.

Eu sempre fui uma criança gordinha. Fugia completamente do padrão loira-alta-magra-sorriso perfeito. Na verdade, além de gordinha, eu sempre fui baixinha, cabelinho escuro, dentes tortos. Claro que quando criança, a gente nem liga muito pra isso. Mas conforme fui crescendo, as críticas iam aumentando. Pois afinal, eu sou menina, e meninas têm que estar sempre bonitas. Por isso, as dietas malucas começaram a fazer parte da minha vida. Eu emagrecia muito, recebia milhares de elogios (afinal, eu ESTAVA MAGRA!!), e então voltava a engordar, e lá vinham as críticas de novo.

Acho que meu ápice veio com meus 14 anos. Eu comprava revistas que ensinavam as mais milagrosas dietas, comecei a me maquiar, usar salto alto (e a coluna que se dane) e comecei a usar tintura no cabelo (afinal, é coisa de mulher), e fiquei 10 Kg abaixo do meu peso. Eu virei escrava disso. Minha vida era só isso: lapidar a minha imagem, para assim, me sentir aceita.

Claro que eu sempre questionei o porquê de a pessoa ter que seguir certo padrão estabelecido, tanto em questões de aparência, atitudes e até questões culturais. Se eu lia livros, eu era diferente (¬¬). Se gosto mais da cor preta do que das outras, ou eu estou usando drogas ou estou passando por problemas emocionais (é, eu já ouvi isso). Acho que foi mais ou menos aí, com uns 17 anos, que meu feminismo começou a aflorar. É, aquele mesmo feminismo que defendeu o sufrágio feminino; aquele mesmo feminismo que “queimou” os sutiãs nos anos 60. Esse mesmo feminismo que defende a igualdade de gênero, que vê todos como ser humano e só, lado-a-lado.

E no meu caso, aconteceu de duas maneiras distintas: consciente e inconsciente. De maneira inconsciente porque eu sabia que alguma coisa estava errada, mas era condescendente com tudo aquilo: mulher tem que ser magra, tem que seguir um comportamento tido como digno pelas camadas sociais conservadoras. E, de maneira consciente, simplesmente porque eu era infeliz. E claro, porque pra mim, o feminismo propriamente dito era um bicho de sete cabeças, uma coisa feia, de mulher mal amada e que quer ser igual aos homens, ou simplesmente, o contrário do machismo.  Agora, imagina a confusão de pensamentos contraditórios: ao mesmo tempo em que eu SEMPRE preferi ser valorizada como ser pensante ao invés de objeto sexual, achava que entrar numa calça número 36 era mais do que essencial para me sentir feliz e realizada.

Hoje eu me sinto um exemplo vivo de manipulação tanto pela mídia quanto por tantos outros meios de se expor os padrões tidos como corretos por essa sociedade patriarcal, que destrói a vida de tantas mulheres.  E não digo isso só na questão de padrões de beleza impostos, mas também da passividade, subserviência e inclusive nesse sexismo na linguagem, que só deprecia a mulher. E fico realmente indignada quando me deparo com mulheres forçando uma fragilidade e dependência inexistentes porque alguns homens acham bonitinho, tudo maquiadinho como simples “proteção” (wtf). Ou quando vejo homens que se consideram superiores pelo simples fato de serem homens, como se merecessem uma medalha por possuírem um cromossomo y.

Só não pense que sou uma mal-amada que odeia os homens. Na verdade, eu sou casada, tenho um filho homem e meu melhor amigo é homem. E nunca me senti melhor ou pior que nenhum deles.

Enfim, eu me orgulho em ser mulher, de ser forte, independente, bem resolvida, de ter o meu espaço, de ir à luta, de defender a igualdade de gênero e não ter vergonha de mostrar isso tudo. E sei que tem um monte de coisas que eu não sei, e que certamente eu não consiga fazer, mas isso não tem nada a ver com o fato de eu ser menina ;D

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